Simão Cayatte: Na competição da cinéfondation

O Festival criou em 1998 uma secção para apoiar a criação cinematográfica no mundo e revelar jovens cineastas.  Uma das várias iniciativas (há um atelier de desenvolvimento por onde passou o realizador João Pedro Rodrigues) é uma selecção oficial, de quinze a vinte curtas e médias-metragens de escolas de cinema. Simão Cayatte, acabado de sair do Curso de Cinema da Universidade de Colúmbia, nos EUA é na verdade este ano o único representante português numa Competição Oficial, apresentando na próxima sexta (20), uma curta-metragem intitulada ‘A Viagem’ na Cinéfondation. Trata-se de uma história simples, mas bem trabalhada do ponto de vista da mise-en-scéne, com uma vaga inspiração no realismo fantástico, baseada num conto de Sophia de Mello Breyner. Conta a história de António (Orlando Costa) que para livrar-se da sua vida rotineira de comerciante, decide alugar um carro descapotável para fazer com a mulher (Margarida Carpinteiro) uma viagem de sonho. Tudo parece perfeito até se perderem no caminho.

IMAGENS DE FUNDO: Em primeiro lugar qual é a sensação de estar em Cannes com um filme? Estavas à espera de ser seleccionado? Como foi esse processo?

SIMÃO CAYATTE: Estar em Cannes é um privilégio único como realizador do filme e como único Português na selecção oficial em competição. Quando recebi o convite apenas dois dias depois de o festival ter recebido o filme fiquei obviamente felicíssimo. Como houve acima de 1500 candidaturas este ano, estava preparado para ser rejeitado porque as hipóteses eram baixissimas. Mas não se consegue prever estas coisas. Acima de tudo o melhor foi poder partilhar a notícia com os actores e a equipa, que deram o máximo e acreditaram na história.

IF: A curta ‘A Viagem’ é uma espécie de filme-tese do teu curso na Universidade de Colúmbia nos EUA, certo? Fala-me um pouco com chegas-te aqui…a tua formação em cinema?

SC: Comecei a fazer curtas-metragens em 2007 depois de ter estudado teatro em Londres. Sempre amei o cinema e apesar de ter trabalhado como actor sempre quis realizar. A minha segunda curta-metragem (The Blind Voyeur) ganhou o Jury Prize no Festival FILMAKA atríbuido por Werner Herzog. Foi isso que me motivou a candidatar-me à Universidade de Columbia onde comecei a estudar em 2008.

IF: Como chegaste ao conto da Sophia de Mello Breyner que deu origem à curta?

SC: Conhecia o conto há muito tempo e lembro-me de este me causar grande angústia cada vez que o lia, mas nunca soube bem porquê. Foi há uns dois anos que decidi tentar perceber o que havia no conto que me fascinava tanto. Tentei perceber, à minha maneira, o que significava a metáfora do desaparecimento das coisas umas atrás das outras e várias outras imagens que me interessavam como a do sonho comum de duas pessoas em viagem, a necessidade de fugir para a frente, etc. A partir daí criei os personagens de António e Maria, e depois de cerca de dez revisões ao guião estava pronto a filmar.

IF: Para uma curta de escola como conseguiste actores tão veteranos?

SC: Quando escrevi a curta estava completamente focado nos arcos dos personagens, no diálogo, e noutras necessidades dramáticas que não conseguia visualizar ou pensar em quem poderia interpretar estes papéis. Contudo, logo que fechei a história e me pus a pensar, imaginei logo a Margarida Carpinteiro no papel de Maria e no Orlando Costa como António. Para mim existia algo nos olhos expressivos e bondosos da Margarida que acediam à alma da Maria. Com o Orlando, achei que era ideal para representar o papel romântico deste homem que tem boas intenções mas falha (ou não) tragicamente perdendo-se pelo caminho. Têm os dois uma técnica incrível com a qual fiquei absolutamente pasmado. Para mim eram eles o António e a Maria, e por isso fiquei feliz quando os contactei e decidiram logo participar dizendo-me que gostaram muito do guião.

IF: A secção Cinefondation é só um principio, além de te proporcionar contactos internacionais é um excelente tranpolim. Que podemos esperar de ti a seguir?

SC: Tenciono nos próximos tempos acabar o curso e continuar a escrever. Quero poder filmar a minha primeira longa-metragem em breve. Mais concretamente, o próximo filme será um thriller. E espero poder filmá-lo em Portugal.

 

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